Pelo título já se antevê o fim do post, e por conseguinte o fim do blog. Mais do que o fim do blog, o fim da minha aventura. Os últimos dias passados em Alexandria foram realmente intensos, pautados de mais ou menos sentido de humor, de mais ou menos paciência para lidar com o aborrecimento de estar 24 horas sobre 24 horas em casa. Preocupação, incerteza, receio preencheram os nossos pensamentos e nem mesmo os jogos de tabuleiro, as sessões de cinema caseiras e as refeições partilhadas nos tornaram alheios ao tumulto que se percebia das ruas.
Quando estava prestes a iniciar as férias que me levariam a descer o Nilo de feluca e a visitar o legado dos grandes faraós instalou-se o boato de que ocorreria uma manifestação que atrairia muita gente para as ruas. Começava a notar-se um nervosinho no ar. Na altura ainda não tinha noção, mas tinha começado a luta pela liberdade. A luta de um povo já demasiado cansado e conformado, em que os críticos e entendidos da política não acreditavam como sendo capaz de fazer frente a um governo demasiado poderoso e resiliente, mas que encontrou inspiração para tal.
A partir daqui não houve muito tempo para reagir. Quando demos conta já não se podia sair de casa. As ruas estavam instáveis, onde pessoas de sangue quente, esperançosas, ávidas por justiça, liberdade, por um outro modo de vida gritavam palavras de ordem e faziam valer o seu ponto de vista.
Das poucas vezes que saí, foi sempre pela manhã, antes do recolher obrigatório, e apenas para comprar comida. Numa das últimas vezes que o fiz, e pelo menos no meu bairro, já não havia água nem arroz ou massa. Para comprar pão a fila era enorme e valeu-me a prioridade que é dada às mulheres. No entanto, foi-me sempre possível comprar legumes, fruta, ovos e em casa bebia-se chá, muito chá.
Das poucas vezes que saí, foi sempre pela manhã, antes do recolher obrigatório, e apenas para comprar comida. Numa das últimas vezes que o fiz, e pelo menos no meu bairro, já não havia água nem arroz ou massa. Para comprar pão a fila era enorme e valeu-me a prioridade que é dada às mulheres. No entanto, foi-me sempre possível comprar legumes, fruta, ovos e em casa bebia-se chá, muito chá.
Pelos filmes gravados e pelas fotografias tiradas a partir das janelas das nossas casas, e partilhadas entre os estagiários, conhecemos uma cidade diferente. Uma cidade pesada, com militares em cada esquina, armados dos pés à cabeça, a pé ou em tanques. Uma cidade sem trânsito (inédito), com bairros barricados com pedras e móveis quase desfeitos, e com lixo, muito lixo.
Mas era de noite que a situação se tornava mais intensa. De noite, homens e os seus filhos meninos saiam para a rua, de paus, facas, pedras, em punho, para protegerem os seus bens, as suas casas, os seus familiares. Porque há sempre várias versões de uma mesma história a acontecer ao mesmo tempo. A revolta estava nas ruas, e temia-se pelas pilhagens. O medo, o pânico, a ansiedade tomava conta de uns num sentido e de outros para um outro sentido.
Em casa tentávamos manter a calma, falar de outras coisas ou discutir o que se passava. Mas nem sempre foi possível manter a calma ou evitar a curiosidade e volta e meia pendurávamo-nos todos à janela para 5 minutos depois sentirmos arrepios e fecharmos tudo de maneira a que não fosse possível abrir outra vez. E voltávamos a abrir, e voltávamos a fechar. Uma noite ouvimos berros, vindos de uma janela vizinha e centenas de homens levantaram os paus e correram, irados. Nessa noite chorámos. Expusemo-nos uns aos outros, declarámos o nosso medo e receio, a nossa incerteza. O que fazer?
Entretanto, estava já em contacto com a embaixada portuguesa. Todos os dias me ligavam para saber como estava e me actualizarem da situação. Apesar destas ligações as comunicações nem sempre foram fáceis. Havia restringimentos nas chamadas e não era possível enviar mensagens. No dia da grande primeira manifestação os telefones e a ligação à internet foram cortados e na televisão não passaram noticiários. Os telefones foram reestabelecidos no dia seguinte, embora com limitações e a internet permaneceu cortada durante mais 5 dias, se bem me recordo. Sem comunicações, sem poder saber o que estava a acontecer, sem poder falar para casa, experienciei pela primeira vez um novo sentimento, que nem sei bem descrever. É de pequenez, de impotência, de inexistência tudo misturado com uma pitada de “o que é que andas a fazer aqui? Que tens contribuído para a sociedade? Não és ninguém, e podem calar-te com uma facilidade aterradora.”
Pode e vai parecer cliché, mas é isso mesmo: dá-se valor ao que se tem, e entende-se a voz dos nossos antepassados e que nos permitiram que hoje nós tenhamos a nossa própria voz, sem lápis azul a riscar-nos o caminho.
E assim, com a situação a agravar-se de dia para dia e sem perspectivas de acalmar recebi a chamada que não queria, mas que antevia. Era hora de ir embora.
Demorei a escrever este post porque demorei a acreditar que tinha chegado o fim. Também não quero parecer demasiado dramática e claro que quando há um fim, há também um novo começo, novos objectivos, novas oportunidades, é o que se espera. Mas houve um fim, e eu tive que chorar por esse fim. Estou a chorar por esse fim, porque não era esperado e porque tenho até saudades daquilo que não vivi. Do que vivi, tenho cheiros, sons, imagens, memórias que me percorrem a pele e que me fazem quase sentir tudo como se fosse pela primeira vez, quase como se estivesse lá…quase. Só mesmo quase.
